Suplementação nas Lesões Desportivas – Da teoria à prática

Embora os estudos acerca de intervenções nutricionais direcionadas para a recuperação de LD sejam escassos, existe evidência adequada de outras populações que pode ser aplicada a atletas através da extrapolação dos resultados obtidos com pacientes catabólicos, como é o caso da bibliografia associada a modelos de cicatrização de feridas, trauma, cirurgia e sarcopenia.

Contudo, o número crescente de artigos cujas conclusões podem ser aplicadas às LD, não se traduz na definição de recomendações práticas que os atletas possam seguir diariamente no processo de recuperação de lesão. É por isso que, por enquanto, assistimos apenas à descrição dos potenciais efeitos dos diferentes suplementos.

Assim, com este post pretende-se colaborar com os profissionais que convivem diariamente com atletas no estabelecimento de procedimentos condizentes com uma recuperação rápida e que, ao mesmo tempo, se traduzam numa menor probabilidade de recidiva.

Cada vez mais, a nutrição é reconhecida como um componente-chave para uma melhor performance desportiva. Neste contexto, o papel do nutricionista é fundamental, na medida em que o planeamento do consumo dos vários grupos alimentares, o incentivo à variedade dentro de cada um desses grupos, o momento da ingestão e a quantidade ingerida são alguns dos fatores com impacto na aptidão física dos atletas, influenciando positivamente a adaptação ao treino e minimizando o risco de lesão (1).

Mais ainda, a ingestão de suplementos alimentares auxilia a colmatar as necessidades que advêm das exigências físicas a que os atletas estão sujeitos, bem como a acelerar o processo de recuperação da lesão (1,2).

A literatura demarca duas fases distintas da lesão, ambas influenciadas pela nutrição: fase de imobilização e atrofia e fase de reabilitação e hipertrofia (3).

A fase de imobilização carateriza-se pela perda progressiva de músculo esquelético causada pelo desuso muscular (4). Na fase de reabilitação e hipertrofia, o objetivo nutricional principal consiste em suportar o crescimento muscular e o aumento da força induzido pelo regresso à atividade (3).

O conhecimento de ambas, no que diz respeito aos eventos metabólicos que vão ocorrendo ao longo do período de lesão (PI) é fundamental, na medida em que as intervenções nutricionais devem ser coordenadas de acordo com a fase da lesão em que o atleta se encontra.

PROTEÍNA

O macronutriente mais frequentemente associado às intervenções nutricionais dirigidas para as LD é a proteína. Sendo os processos de regeneração altamente dependentes da síntese de colagénio e outras proteínas, a importância deste macronutriente torna-se evidente (2).

Nos casos específicos do treino de resistência, de manutenção da massa magra em défice calórico e da recuperação de LD, recomenda-se uma ingestão proteica superior à estipulada pela OMS para indivíduos sedentários – 0,8g/kg (5).

Num estudo de Mettler et al. (2010), os atletas com uma ingestão proteica (IP) elevada (2,3g/kg/dia), ou 35% do valor energético total (VET) diário, durante períodos de balanço energético negativo sofreram menores perdas musculares comparativamente a atletas com uma IP inferior (1,0g/kg/dia ou 15% do VET) (6). Assim, uma ingestão igual ou superior a 2,0g/kg/dia parece ser necessária para evitar a perda de massa muscular (MM) durante a recuperação de lesão (7).

Para além da quantidade absoluta de proteína, a frequência e o padrão da ingestão diária têm influência na otimização da SPM, nomeadamente quando é promovida a ingestão proteica de forma equitativa em várias refeições ao longo do dia, ao contrário do que se verifica com a sua concentração apenas nas refeições principais (8, 9).

É o caso de um estudo de Mamerow et al. (2014), no qual o grupo que fez 3 refeições diárias (30g ao pequeno-almoço, 30g ao lanche, 30g ao jantar) apresentou uma SPM 25% superior ao que consumiu a mesma quantidade de proteína, mas que adotou uma distribuição desigual ao longo do dia, com a maior parte da proteína total concentrada no jantar (10g pequeno-almoço, 15g lanche, 65g jantar) (8).

E o consumo de suplementos proteicos? Serão estes importantes no que diz respeito à manutenção de MM?

A principal vantagem da suplementação proteica, para além da sua conveniência, decorre do facto de ser possível obter uma quantidade que maximize a SPM (0,25-0,4g/kg) e, simultaneamente, com um aporte calórico inferior àquele que se obteria através do consumo da mesma quantidade de proteína por via da ingestão de um alimento/refeição.

Por exemplo, para a obtenção de 20 g de proteína (equivalente a 1 scoop – 110 kcal) são necessários 3 ovos (240 kcal) / 1 lata de atum (210 kcal) / 750 ml de leite magro (330 kcal) / 120g de queijo magro  (200 kcal). Isto não quer dizer que os alimentos comuns devam ser substituídos pela suplementação. No entanto, nos atletas lesionados, a sua ingestão é uma opção a considerar para evitar o ganho indesejado de massa gorda, particularmente durante a fase de imobilização.

Uma vez que durante o período de lesão, o gasto energético (GE) se encontra diminuído, a escolha de alimentos ‘hipocalóricos’ e ‘ricos’ do ponto de vista proteico deve ser tida em conta ao longo do processo de recuperação (3).

Da panóplia de suplementos disponíveis ao consumidor, a proteína whey acaba por ser uma boa escolha pelas vantagens acima descritas e, principalmente, pelo seu teor elevado em leucina e aminoácidos essenciais, cujo conteúdo (em uma dose – 20 a 25g) é suficiente para estimular ao máximo a SPM (na maioria dos casos) (10).

CREATINA

O uso de creatina na potencial mitigação da perda de MM durante o PI tem vindo a ser investigado no âmbito das LD.

No que respeita à fase de imobilização muscular, a ingestão de creatina foi eficaz na diminuição da atrofia muscular em braços imobilizados (11).

A suplementação de creatina (SC) teve ainda um efeito positivo na estimulação da HM e no aumento da expressão de  “transportadores de glicose tipo 4” (GLUT4 – Glucose transporter type 4) localizados no músculo esquelético, durante a imobilização (-20% placebo; +9% creatina). Durante o período de reabilitação, esse aumento foi 40% superior no ‘grupo creatina’ (12).

A importância destes transportadores prende-se com o facto de estes estarem diretamente relacionados com o aumento da sensibilidade à insulina. Na ausência de exercício físico, a concentração destes transportadores tende a diminuir e, por sua vez, aumenta a tendência para a perda de massa muscular (MM) (12).

Para além de aumentar o conteúdo em GLUT4, a creatina está associada ao aumento da expressão de proteínas e fatores de crescimento que participam no processo de remodelação muscular (13, 14).

Tendo em conta os efeitos acima descritos, a sua suplementação deverá ser tida em consideração aquando das duas fases da lesão. Ou seja, logo após a lesão, poderá ser implementado um protocolo de suplementação ou, caso este já esteja a decorrer, dar continuidade ao mesmo.

No entanto, sendo um dos seus ‘efeitos secundários’ o aumento de peso causado pelo aumento da retenção de água nas fibras musculares, coloca-se a seguinte questão: os benefícios da SC contrabalançam o risco do aumento de peso durante o PI?

Segundo a bibliografia apresentada, a resposta a essa questão parece ser afirmativa. Ainda que a suplementação com creatina durante o período de imobilização (fase 1) possa despoletar um ligeiro aumento de peso, esse aumento é facilmente reversível com o regresso à atividade.

Relativamente à quantidade ingerida, a chamada ‘fase loading’ correspondente a 3g/dia (durante 4 semanas) parece ser mais adequada comparativamente à dita ‘fase de carga’ (4 x 20g/dia durante 5 a 7 dias) (15). Embora ambas as abordagens maximizem as reservas de fosfocreatina, a última traduz-se num aumento do peso superior, resultante do mecanismo acima descrito (16).

Mais ainda, a sua inclusão, assim como a proteína whey (suplemento), é legítima logo após a lesão até ao final do processo de recuperação.

Coletivamente, estes resultados sugerem que a SC representa uma estratégia eficaz na manutenção de massa muscular (MM) ao atenuar a atrofia muscular induzida pela imobilização e aumentar os ganhos de força durante a fase de reabilitação (17).

ÁCIDOS GORDOS ÓMEGA-3

Os ácidos gordos (AG) ómega-3 (O-3) são frequentemente associados ao tratamento das LD  devido às suas  propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras (3).

A suplementação em AG O-3 é particularmente importante nos casos em que a inflamação é excessiva e prolongada (7). No entanto, dada a importância da resposta inflamatória no processo de cura, o uso de nutrientes com ação anti-inflamatória deve ser cuidadosamente prescrito, especialmente durante a fase de imobilização e atrofia (7, 8).

Assim, ao contrário do protocolo de suplementação de creatina que, segundo a análise da literatura, poderá ser implementado logo após a lesão, a suplementação de AG O-3 deverá ser apenas implementada numa fase posterior, nomeadamente quando o atleta voltar a realizar exercícios específicos de reabilitação da estrutura lesionada.

Em indivíduos com idades compreendidas entre os 25 e os 45 anos, a suplementação com AG O-3 durante 8 semanas resultou num aumento considerável da resposta anabólica muscular, no aumento do tamanho celular e da concentração proteica muscular em resposta à infusão intravenosa de aminoácidos e insulina (18). Similarmente, 6 meses de suplementação (3,36g/dia) resultaram no aumento de massa muscular (+3,6%) e força (+4%) em idosos (20).

Os seus efeitos parecem ser mais evidentes quando o atleta é incapaz de tolerar uma dose ótima de proteína durante o processo de recuperação, ao facilitar o remodelamento da proteína muscular, ou nos casos em que a quantidade de proteína ingerida é insuficiente para estimular ao máximo a SPM (20).

O mecanismo proposto para explicar estes resultados envolve a incorporação destes AG na membrana fosfolipídica das células musculares, sendo que tais modificações estão associadas à ativação de proteínas de sinalização celular envolvidas em processos anabólicos (21).

Começam também a surgir trabalhos que demonstram potenciais benefícios da suplementação com AG O-3 no tratamento ou alívio da sintomatologia associada a lesões/dores articulares (22). A dor articular é bastante comum na comunidade atlética. No caso particular dos atletas que participam em desportos que envolvem um impacto articular aumentado (futebol, basquetebol, andebol, ténis), estes estão mais expostos a sofrerem lesões ao nível da cartilagem das articulações. Deste modo, os AG O-3 podem ser úteis na manutenção da saúde articular e na recuperação de lesões deste tipo (22).

Mais ainda, a ocorrência de sintomas prematuros de osteoartrite (doença crónica caracterizada por alterações degenerativas da cartilagem articular) em atletas tem vindo a ser frequentemente descrita, especialmente em desportos que envolvem acelerações/desacelerações frequentes e que sujeitam as articulações a uma carga elevada e contínua (22).

Neste contexto, a suplementação com óleo de peixe (3g/dia) diminuiu a incidência e a severidade da osteoartrite por via da preservação da integridade do colagénio tipo II (22).

Quanto à dose a ingerir, a maioria dos estudos utiliza doses a rondar 2 a 3g/dia (EPA + DHA), o que parece ser adequado, tendo em conta os resultados positivos obtidos (22).

Clique para mostrar/ocultar as referências

1 – Beck, K. L., Thomson, J. S., Swift, R. J., & von Hurst, P. R. (2015). Role of nutrition in performance enhancement and postexercise recovery. J Sports Med, 6, 259-267 ;

2 – Medina, D., Lizagarra, A., & Drobnic, F. Injury Prevention and Nutrition in Football. Retirado de: https://www.gssiweb.org/en-ca/Article/sse-132-injuryprevention-and-nutrition-in-football ;

3 – Tipton, K. D. (2010). Nutrition for acute exercise-induced injuries. Ann Nutr Metab, 57 Suppl 2, 43-53 ;

4 – Magne, H., Savary-Auzeloux, I., Rémond, D., & Dardevet, D. (2013). Nutritional strategies to counteract muscle atrophy caused by disuse and to improve recovery. Nutrition Research Reviews, 26(2), 149–165 ;

5 – WHO/FAO/UNU Expert Consultation. (2007). Protein and amino acid requirements in human nutrition. World Health Organization Technical Report Series, (935), 1–265.

6 – Mettler, S., Mitchell, N., & Tipton, K. D. (2010). Increased protein intake reduces lean body mass loss during weight loss in athletes. Medicine and Science in Sports and Exercise, 42(2), 326–337 ;

7 – Tipton, K. D. (2015). Nutritional Support for Exercise-Induced Injuries. Sports Med, 45 Suppl 1, S93-104 ;

8 – Mamerow, M. M., Mettler, J. A., English, K. L., Casperson, S. L., ArentsonLantz, E., Sheffield-Moore, M., . . . Paddon-Jones, D. (2014). Dietary protein distribution positively influences 24-h muscle protein synthesis in healthy adults. J Nutr, 144(6), 876-880 ;

9 – Phillips, S. M., & Van Loon, L. J. (2011). Dietary protein for athletes: from requirements to optimum adaptation. J Sports Sci, 29 Suppl 1, S29-38 ;

10 – Devries, M. C., & Phillips, S. M. (2015). Supplemental protein in support of muscle mass and health: advantage whey. J Food Sci, 80 Suppl 1, A8-a15.

11 – Johnston, A. P., Burke, D. G., MacNeil, L. G., & Candow, D. G. (2009). Effect of creatine supplementation during cast-induced immobilization on the preservation of muscle mass, strength, and endurance. J Strength Cond Res, 23(1), 116-120 ;

12 – Op ‘t Eijnde, B., Urso, B., Richter, E. A., Greenhaff, P. L., & Hespel, P. (2001). Effect of oral creatine supplementation on human muscle GLUT4 protein content after immobilization. Diabetes, 50(1), 18-23 ;

13 – Olsen S, Aagaard P, Kadi F, et al. Creatine supplementation augments the increase in satellite cell and myonuclei number in human skeletal muscle induced by strength training. J Physiol. 2006;573:525–34 ;

14 – Willoughby DS, Rosene JM. Effects of oral creatine and resistance training on myogenic regulatory factor expression. Med Sci Sports Exerc. 2003;35:923–9 ;

15 – Hultman, E., Soderlund, K., Timmons, J. A., Cederblad, G., & Greenhaff, P. L. (1996). Muscle creatine loading in men. J Appl Physiol (1985), 81(1), 232-237 ;

16 – Hultman, E., Soderlund, K., Timmons, J. A., Cederblad, G., & Greenhaff, P. L. (1996). Muscle creatine loading in men. J Appl Physiol (1985), 81(1), 232-237.

17 – Kreider, R. B., Kalman, D. S., Antonio, J., Ziegenfuss, T. N., Wildman, R., Collins, R., . . . Lopez, H. L. (2017). International Society of Sports Nutrition position stand: safety and efficacy of creatine supplementation in exercise, sport, and medicine. J Int Soc Sports Nutr, 14 ; 

18 – Teixeira, V. H., & Mendes, A. P. (2018). Muscle Injury Recovery: How Much Impact Does Nutrition Have? Retirado de: https://footballmedicine.net/muscleinjury-recovery-and-nutrition/

19 – Smith, G. I., Atherton, P., Reeds, D. N., Mohammed, B. S., Rankin, D., Rennie, M. J., & Mittendorfer, B. (2011). Omega-3 polyunsaturated fatty acids augment the muscle protein anabolic response to hyperinsulinaemia-hyperaminoacidaemia in healthy young and middle-aged men and women. Clin Sci (Lond), 121(6), 267-278.

20 – Smith, G.I.; Julliand, S.; Reeds, D.N.; Sinacore, D.R.; Klein, S.; Mittendorfer, B. Fish oil-derived n-3 PUFA therapy increases muscle mass and function in healthy older adults. Am. J. Clin. Nutr. 2015, 102, 115–122.

21 – McGlory C, Wardle SL, Macnaughton LS, et al. Fish oil supplementation suppresses resistance exercise and feeding-induced increases in anabolic signaling without affecting myofibrillar protein synthesis in young men. Physiol Rep. 2016;4

22 – Gammone, M. A., Riccioni, G., Parrinello, G., & D’Orazio, N. (2018). Omega-3 Polyunsaturated Fatty Acids: Benefits and Endpoints in Sport. Nutrients, 11(1).

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Francisco pereira

Francisco pereira