Os atletas têm necessidades acrescidas de ferro?

Os atletas têm necessidades acrescidas de ferroA prevalência de depleção de ferro parece ser de 20 a 50% nas atletas femininas e de 4 a 50% nos atletas masculinos, sendo mais frequente nos atletas de endurance.1

A deficiência de ferro, sem anemia, é um estágio inicial da deficiência de ferro e caracteriza-se por reservas baixas deste mineral. À medida que a deficiência de ferro progride para anemia, as concentrações de hemoglobina também diminuem.1

Dado o papel essencial do ferro na utilização de oxigénio e no metabolismo aeróbico, o défice de ferro tem potencial para afetar a capacidade submáxima e máxima de exercício, tendo-se verificado que a diminuição das reservas de ferro tem um efeito negativo na capacidade aeróbica, mesmo sem a presença de anemia.1-3

As possíveis causas para as perdas acentuadas de ferro em atletas incluem:

Inflamação associada ao exercício

A inflamação promove o aumento dos níveis de hepcidina, uma hormona que promove o sequestro de ferro.4 A prática de exercício físico promove a libertação da proteína pró-inflamatória interleucina-6 (IL-6) a partir do músculo esquelético, que por sua vez aumenta os níveis de hepcidina.5-9

Embora o exercício promova a libertação de IL-6 a partir do músculo esquelético em exercício de forma dependente da duração, modo e intensidade, a duração do exercício é o principal determinante da libertação de IL-6.8,9

Hematúria

A presença de sangue na urina (hematúria) após a realização de exercício é um fenómeno comum, tendo sido reportada em 95-100% dos casos e ocorre devido a respostas vasculares ao exercício, bem como à degradação do sangue e de células musculares.10-12

A hematúria está relacionada com a intensidade do exercício e pode ser causada por trauma direto ao trato urinário durante o exercício, trauma renal, danos renais derivados da falta de oxigénio (hipoxia e isquemia), aumento da pressão renal, lesão durante o exercício, uso de fármacos anti-inflamatórios não esteroides, desidratação, hemólise devido ao trauma do impacto nos tecidos, libertação de mioglobina e peroxidação de glóbulos vermelhos, aumento da temperatura corporal, acidose associada ao exercício, trauma renal ou da bexiga.1,12,13

Desportos de contacto, tais como boxe, ciclismo, esqui, futebol, hóquei e rugby, entre outros, tendem a causar lesões diretas ao trato urinário através de contacto externo, trauma penetrante ou através de forças de cisalhamento extremas que resultam na transmissão dessas forças ao trato urinário e resultante lesão.12

Outros desportos, tais como remo, corrida ou natação, principalmente desportos de endurance, também podem causar hematúria devido ao aumento dos níveis de catecolaminas, o que diminui a circulação sanguínea nos rins e redireciona-a para os músculos, resultando em danos aos nefrónios por hipoxia e no aumento da permeabilidade glomerular e subsequente libertação de glóbulos vermelhos no filtrado. A vasoconstrição da arteríola glomerular eferente também resulta num aumento da pressão da filtração glomerular e numa maior excreção de glóbulos vermelhos.12

Perdas gastrointestinais de sangue

As perturbações gastrointestinais afetam entre 30 a 50% dos atletas, com maior incidência nos atletas de endurance.14,15

O aumento dos níveis de catecolaminas causado pela prática de exercício desvia o sangue das vísceras para outros tecidos, tais como os músculos ativos, coração, pulmões e pele. De facto, durante o exercício de alta intensidade, o fluxo sanguíneo esplâncnico poderá ser reduzido em até 80%, o que por sua vez poderá causar isquemia gastrointestinal, com consequentes perdas de sangue.14

Para além disso, o trauma mecânico sofrido pelo sistema digestivo durante a prática de exercício, como por exemplo devido ao impacto repetitivo da corrida, é outra possível causa de sangramento.1,14,16,17

Hemólise

Durante atividades que envolvem corrida ou salto, os glóbulos vermelhos que se encontram nos capilares da parte inferior do pé são destruídos pelas forças mecânicas derivadas do impacto com o chão durante a passada.1

Para além disso, a taxa de hemólise (destruição dos glóbulos sanguíneos) também pode aumentar devido ao trauma mecânico da circulação sanguínea geral, ao aumento da produção de superóxido ou devido a mudanças osmóticas que provocam alterações no volume dos glóbulos vermelhos, aumentando assim a sua fragilidade.18

Perda de ferro através do suor.

O ferro é um dos constituintes fisiológicos do suor e um estudo observou uma perda de 22,5 mcg de ferro por litro de suor,19 sendo que a sua concentração no suor aumenta aquando da realização de exercício a temperaturas mais elevadas (40°C).20

Outros fatores

Para além dos pontos já referidos nste artigo, existem outros fatores que, embora não estejam não diretamente relacionados com a prática de exercício, podem potenciar a perda ou aumentar as necessidades de ferro, incluindo:

  • A exposição a altitudes mais elevadas, onde a atmosfera tem uma menor concentração de oxigénio, aumenta as necessidades de ferro do organismo, principalmente devido ao aumento da produção de glóbulos vermelhos.21,22
  • Os atletas vegetarianos ou veganos estão em maior risco de deficiência devido à menor biodisponibilidade de ferro de uma dieta à base de plantas.1,23
  • Os atletas que doam sangue com frequência também têm maior risco de défice de ferro, uma vez que cada 0,5 L de sangue contém 200 a 250 mg deste mineral.1,24
  • Os atletas que usam anti-inflamatórios não esteroides têm um maior risco de perdas de sangue gastrointestinal, aumentando assim o seu risco de défice de ferro.1,25,26
  • Helicobacter pylori e as infeções parasíticas gastrointestinais também aumentam as perdas de sangue através do trato gastrointestinal.1,27
  • As mulheres que tiveram mais de um parto têm um risco aumentado de défice, devido às perdas de ferro associadas à gravidez.1
  • As mulheres que perdem grandes quantidades de sangue durante a menstruação ou que usam dispositivos intrauterinos (DIUs), estão em maior risco de défice devido a perdas mais expressivas de sangue.1
  • Porque o teor de ferro presente na alimentação típica dos EUA é de 6 mg por cada 1000 calorias, a maioria das mulheres têm dificuldades em ingerir a quantidade recomendada de ferro (18 mg/dia), apenas através da dieta.1
  • Alguns alimentos, incluindo o café, chá e refrigerantes contendo fosfato, diminuem a absorção de ferro.1,28
  • Vários tipos de medicamentos (ex: tetraciclinas, antiácidos e bloqueadores de acidez), também diminuem a absorção deste mineral.1
  • A ingestão inadequada de energia, tal como no contexto de uma dieta de restrição energética, poderá conduzir a uma menor ingestão de ferro.29
  • As necessidades de ferro também aumentam durante os períodos de crescimento rápido.29

“Pseudoanemia”

De notar que o treino de endurance pode causar uma expansão do volume do plasma sanguíneo que poderá exceder ou preceder o aumento adaptativo do número de glóbulos vermelhos, o que por sua vez poderá resultar num hematócrito ou níveis de hemoglobina aparentemente baixos.30 No entanto, este fenómeno não afeta a performance de forma negativa.1

Recomendações para atletas

Segundo o Institute of Medicine (US) a “Estimated Average Requirement” (EAR) de ferro para atletas poderá ser 30-70% mais elevada devido a estes terem perdas mais expressivas deste mineral.31

Por sua vez, o Comité Olímpico Internacional (IOC) recomenda que a avaliação do estado de ferro, incluindo anemia e reservas de ferro, seja incluída nas avaliações periódicas de saúde dos atletas de elite, devido ao aumento da prevalência de défice de ferro nesta população.32

Alguns autores também sugerem que os atletas que treinam a altitudes elevadas podem necessitar de suplementação com ferro. No entanto, recomendam que a decisão de suplementar e a dose a ingerir sejam individualizadas.22

Conclusão

As perdas de sangue associadas ao exercício e, consequentemente, as perdas de ferro, são mais elevadas após a realização de atividades de alta intensidade, prolongadas ou dinâmicas que envolvem o transporte de peso, o que pode aumentar as perdas de ferro em 30 a 70%.1,31,33

As atletas, sobretudo aquelas envolvidas em desportos de endurance, estão em maior risco de défice de ferro, comparativamente aos indivíduos do sexo masculino, devido a maiores perdas de sangue durante a menstruação, uso de equipamentos intrauterinos (DIUs), gravidez e menor ingestão de energia.1

A suplementação com ferro poderá ser recomendada em alguns casos, após a confirmação de défice de ferro através de uma avaliação adequada.32

Clique para mostrar/ocultar as referências

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Fernando Ribeiro

Fernando Ribeiro

Nutricionista no Moreirense Futebol Clube. Licenciado em nutrição pela FCNAUP. Também publica nos blogs musculacao.net e footballmedicine.net.